Clementina de Jesus trabalhou como empregada doméstica por 20 anos de sua vida. Seu destino seria como o da maioria dos brasileiros caso seu talento musical não tivesse sido descoberto. Provavelmente, trabalharia até o corpo não poder mais, sem nunca conquistar uma velhice confortável.

A voz inconfundível - rouca, grave e rasgada - não trouxe uma fortuna para Clementina. No entanto, deu-lhe a chance de gravar mais de cem músicas e participar de discos de outros artistas, além de ser considerada uma das principais intérpretes do Brasil. Ela teve a oportunidade de brilhar tardiamente, aos 63 anos.

Lançado em fevereiro deste ano pela editora Civilização Brasileira/Record, o livro "Quelé, a voz da cor - Biografia de Clementina de Jesus" explora uma Clementina pouquíssimo estudada até então.

O acaso e a sorte foram aliados dos quatro autores, Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz, ex-estudantes de jornalismo de São Bernardo, em São Paulo, que viviam intrigados com a escassez de informações sobre a trajetória da cantora.

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Crédito da imagem: divulgação/ Editora Civilização Brasileira Record

Capa do livro "Quelé, a voz da cor - Biografia de Clementina de Jesus

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Crédito da imagem: divulgação/ Editora Civilização Brasileira Record

Clementina de Jesus

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Crédito da imagem: Ronaldo Theobald/ CPDOC JB

Clementina e Albino Pé Grande

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Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Clementina e Dona Ivone Lara

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Crédito da imagem: divulgação/ Editora Civilização Brasileira Record

Clementina de Jesus

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Crédito da imagem: Funarte/ Foto Carlos - Rosa de Ouro

Clementina de Jesus e o conjunto Os Cinco Crioulos, em 1965

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Crédito da imagem: Funarte/ Foto Carlos - Rosa de Ouro

Aracy Cortês e Clementina no espetáculo Rosa de Ouro, em 1965

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Clementina de Jesus e Hermínio Bello de Carvalho

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Crédito da imagem: Ovídio Vieira/Folhapress

Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus

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Crédito da imagem: divulgação

João Bosco e Clementina de Jesus

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    Capa do livro "Quelé, a voz da cor - Biografia de Clementina de Jesus

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    Clementina de Jesus

  • Crédito da imagem: Ronaldo Theobald/ CPDOC JB

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    Clementina e Albino Pé Grande

  • Crédito da imagem: Arquivo pessoal

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    Clementina e Dona Ivone Lara

  • Crédito da imagem: divulgação/ Editora Civilização Brasileira Record

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    Clementina de Jesus

  • Crédito da imagem: Funarte/ Foto Carlos - Rosa de Ouro

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    Clementina de Jesus e o conjunto Os Cinco Crioulos, em 1965

  • Crédito da imagem: Funarte/ Foto Carlos - Rosa de Ouro

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    Aracy Cortês e Clementina no espetáculo Rosa de Ouro, em 1965

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    Clementina de Jesus e Hermínio Bello de Carvalho

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    Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus

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    João Bosco e Clementina de Jesus

Os encontros dos estudantes com uma Clementina ainda incógnita começaram em 2011, quando conheceram Werinton Kermes, diretor de "Clementina de Jesus - Rainha Quelé", documentário que valorizava o papel da cantora no resgate das raízes do samba enquanto a bossa nova atingia seu auge.

Os autores investigaram esse período por perceberem a importância de melhor compreender a trajetória dessa importante intérprete que desafiou os moldes da música popular à época e, por consequência, abriu caminhos estéticos para as expressões ancestrais africanas ressurgirem nas grandes mídias.

Fugindo da fala comum que parte de uma Clementina revelada pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho na Taberna da Glória, na década de 60, os autores procuraram restabelecer as andanças da intérprete pautadas por questões políticas, sociais e culturais cruzando documentos e falas de personagens variados. "Montamos uma cronologia da vida da Clementina com as informações que já conhecíamos e a partir daí fomos construindo hipóteses sobre as pessoas que ela poderia ter convivido", conta Raquel em entrevista exclusiva ao Samba em Rede.

A história e as histórias da intérprete são contadas a partir de depoimentos antigos gravados em vídeo, documentos históricos, livros e materiais de imprensa, além de inúmeras entrevistas recentes; Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Nelson Sargento, Hermínio Bello de Carvalho são alguns nomes que fizeram parte da lista de quase 50 entrevistados ao longo do período de praticamente seis anos de pesquisa.

"Todas as entrevistas foram importantes, sem dúvidas. Mas algumas nos impressionaram mais como: a fala da Dona Beralda, costureira que fez o vestido do espetáculo 'Rosa de Ouro'; Papete Vianna, percussionista que acompanhou Clementina na gravação de 'Canto dos Escravos', e também a contribuição do Ivan Milanês da Serrinha", conta Raquel, ao ser perguntada sobre os registros mais impactantes durante o processo de pesquisa.

Outra novidade da obra é a recuperação da primeira fase da vida da cantora e a confirmação da data de seu nascimento no ano de 1901. Nascida na cidade de Valença, sul do estado do Rio, tradicional reduto de jongueiros, Clementina era filha da parteira Amélia de Jesus dos Santos e de Paulo Batista dos Santos, capoeira e violeiro da região. A pequena Quelé viveu a infância escutando sua mãe cantar enquanto lavava as roupas à beira do rio. Assim foi guardando na memória tesouros que mais tarde gravaria em discos.

Debruçando-se sobre essas informações, o grupo de autores compreendeu como certos conflitos sociais e históricos da virada do século XX para o XXI - o fim da escravidão, a migração rural para os centros urbanos, perseguição e intolerância religiosa e principalmente a marginalização da cultura de massas - serviram de base para a reconstrução da memória músical e política de Clementina.

Essas vivências compuseram a vida da cantora por meio de relações familiares, de amizade, com as escolas de samba e espaços sociais com os quais ela estabeleceu uma relação mediada pela música. Ainda criança, Clementina muda-se com a família para o bairro de Oswaldo Cruz, berço da Escola de Samba Portela.

Do grupo Folia de Reis de seu João Cartolinha, em 1908, à ensaiadora do grupo de pastoras de Heitor dos Prazeres, a jovem Clementina começa colecionar histórias e vivências com grandes bambas como Paulo da Portela, Claudionor e Ismael Silva. Em 1938, conhece Albino Pé Grande, seu futuro marido e morador do Morro de Mangueira, e começa a estreirar laços com a Estação Primeira. Ao longo destes anos Clementina trabalhou como cozinheira, lavadeira e empregada doméstica.

A carreira profissional de Clementina como cantora começou aos 63 anos, depois que o produtor e compositor Herminio Bello de Carvalho a encontrou na festa da Penha em 1963, quando ela cantava na Taberna da Glória. Hermínio ficou fascinado pela sambista e quando a reencontrou, na inauguração do Zicartola - restaurante fundado por Dona Zica e Cartola - a convidou para o espetáculo "Rosa de Ouro", em 1965.

Participavam do show, além de Clementina de Jesus e Aracy Côrtes, os bambas - ainda jovens - Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Paulinho da Viola, formando o conjunto Os Cinco Crioulos. Em 1966, a cantora grava seu primeiro disco homônimo, com produção de Hermínio. Nos anos seguintes participa dos discos "Mudando de conversa", "Fala Mangueira!" e "Gente da antiga", este último, ao lado de João da Baiana e Pixinguinha.

Em 1982, Clementina, Geraldo Filme e Tia Doca gravam o disco "O Canto dos Escravos", apoiados em memórias sonoras chamadas vissungos - uma forma de cantiga de trabalho herdada dos negros benguelas - recolhidas pelo historiador Aires da Mata Machado Filho em São João da Chapada, município de Diamantina, em Minas Gerais, que insere 14 cantos dos escravizados mineiros do século XVIII na cena musical contemporânea. "Meu encontro com a Clementina se deu depois de escutar o disco 'Canto dos Escravos'. Eu, particularmente, já tinha um interesse muito grande pela cultura afro-brasileira e fiquei bastante curiosa sobre a história de vida dessa mulher", conta Janaína.

O livro aguça a curiosidade do leitor sobre a figura de Quelé e seus pares, além de sua contribuição no processo que culminou no que há de mais interessante no Brasil: nossa cultura, música e identidade. "Da comida que ela preparava ao seu canto, tudo de Clementina reflete o Brasil", aponta Janaína.

No entanto, a abordagem dos autores também chama a atenção do leitor para uma triste verdade: "O Brasil está cheio de Clementinas espalhadas por aí. Existem milhares de mulheres do samba que não têm suas histórias registradas", lamenta Raquel, no esforço de dar voz às histórias de tantas mulheres que, por tempos caídas no esquecimento, precisam ser conhecidas e respeitadas como fonte de cultura e tradição dentro do samba.

Há 30 anos, esta lenda da música popular brasileira morreu, deixando como legado a tradição oral que trouxe para o samba. Com um canto quase falado, criou uma linguagem contemporânea para abordar elementos da cultura africana que ecoam até hoje, anos depois de sua primeira aparição pública como cantora.